“A casa de Nenê, a casa de Nhô Doro, a casa de Tiazinha, a Pedreira; enfim, eram sinônimos do mesmo sítio encantado de minha infância ...
A Pedreira significava para mim a liberdade, o direito de correr por aquelas encostas já marginando a zona rural, escalar barrancos, ir até o alto do Morro e de lá completar o casario humilde cá embaixo... Custava-me muito conquistar a regalia dessa evasão. Todos os dias de passeio à Pedreira ficariam assim marcados como verdadeiros acontecimentos em minha infância”.
( Brito Broca – Escritor Guaratinguetaense )

A COMUNIDADE : PEDREIRA, ALTO DAS ALMAS E ALTO SÃO JOÃO

À época em que ocorreu a quase totalidade dos fatos que aqui vão ser descritos (década de 60), havia, pelo menos entre as crianças do bairro, uma clara divisão: a Rua Rangel Pestana era denominada pelos seus moradores, de Alto de São João. O restante do bairro, Alto das Almas. Principalmente, porque o Cemitério Velho, como era conhecido, ficava de frente para a Rua Cônego Benedito, bem afastado da Igreja de São João.

Mas acontece, que o que era conhecido e chamado de Alto das Almas – as ruas Pires do Rio, Marcondes de Moura, Albuquerque Lins, Almirante Alexandrino, Joaquim Fagundes, Cônego Benedito e Alfredo Antunes, era muito maior e mais populoso. Daí a generalização do nome do bairro. Discutida sempre, pelos moradores da Rangel Pestana. E nunca aceita tranqüilamente. Pelo menos entre a molecada, ainda não influenciada pelo conformismo dos adultos.

Entretanto, entre nós, o mais comum era referirmo-nos como “Alto”. Só Alto. O Alto fica na zona sul da cidade. Geograficamente, portanto, bem situado, partindo do princípio de que no Rio e em São Paulo, o “chique” é morar na zona sul. Mas, socialmente, que contraste !

Quem morava na Rua Alfredo Antunes dizia-se morador da Pedreira. Que não era lá tão rica assim. Mas era outro estágio, pelo menos teoricamente.

O Alto possui 100.000 metros quadrados bem medidos. Área correspondente a não mais que cerca de 10 campos de futebol. Dos grandes.

Por volta de 1945, entre ranchinhos, meias-águas, casebres, um enorme chalé que abrigava várias famílias, e até algumas casas boas, havia umas duzentas moradias. Com uma média de cinco moradores em cada uma delas, nessa área vivia uma população que pode ser estimada em cerca de 1.000 pessoas. Atualmente, este panorama foi triplicado.

O “país” que era o Alto mantinha relações com todos os bairros da cidade. Só que boas relações mesmo, só eram mantidas com os bairros mais afastados. Com o “Centro”, já não eram tão boas assim, mais por preconceito dos centrais. Entretanto, com os seus vizinhos mais próximos – Pedreira e Boa Vista – aí então, é que a coisa “pegava fogo”. “Ou faca”.

O Alto já era, por si só, um ponto turístico. Só que para ser visto de longe. Como as favelas atuais das grandes cidades. Não inspirava muita tranqüilidade subir ao Alto. Mas, mesmo assim, havia pessoas que, nas tardes de domingo, arriscavam uma subida ao Morro para apreciar a paisagem. Principalmente, quando o Paraíba transbordava e formava um imenso lago na sua margem esquerda, justamente onde hoje está localizada a Vila Paraíba.

Propriamente como ponto turístico, o Alto tinha a Igreja de São João, construída por Monsenhor João Fillippo, ex-vigário de Santo Antônio. No Alto, havia o Farveste ou Farvestinho (do meio pra frente da Joaquim Fagundes). Era ali a “zona quente” do Alto. Zona ali, não tinha o sentido geográfico de região. Era zona, mesmo. Mas horrível, pobre, um problema só. Lá pelas tantas da noite, batia uma mulher na venda do Totó:

- “Seo” Totó, venda pra mim duzentos réis de banha, que é pra fazer um arrozinho. Só agora que eu consegui “fazer” um dinheirinho. Me dê também um tostão de pó, um tostão de torrada, um feixinho de lenha e me arrume um fósforo do seu ... Era uma moradora do Farveste.

Havia também o “Distrito do Cemitério”. Ou Cemitério Velho, como diziam. Constituía-se do referido, mais as ruas Cônego Benedito e início da Joaquim Fagundes. O Cemitério foi a primeira necrópole de Guaratinguetá. Por volta de 1945, ele ainda apresentava as catacumbas em bom estado de conservação. Havia muito mármore ricamente talhado, cruzes e anjos artisticamente confeccionados. Ao fundo, dando costas para a Albuquerque Lins, os restos do que fora a sua capela. Hoje está lá a Igreja de São Miguel.

O Alto das Almas, apesar da má fama que “desfrutou” nessa época, tem um privilégio que jamais ninguém vai lhe tirar. E olha que, para um bairro que só tinha coisas “contra”, um “pró” que seja já é motivo de orgulho. Pois esse orgulho vem do fato que, embora sendo um bairro encarapitado num Morro, ele é, em matéria de urbanismo, a primeira coisa feita, desenhada, traçada, de Guaratinguetá. Todas as ruas são retas. Paralelas e transversais.

TODAS AS RUAS TÊM NOME DE PESSOAS ILUSTRES:

RUA RANGEL PESTANA: homenagem ao Dr. Francisco Rangel Pestana. Natural da então Província do Rio de Janeiro, fez curso jurídico na Faculdade de Direito de São Paulo. Desde muito jovem adotou idéias políticas democráticas e republicanas, das quais se tornou propagandista. Jornalista, fundou em 1860, o “Timbira”. Proclamada a República, fez parte do triunvirato que assumiu o governo do Estado de São Paulo, em 16 de Novembro de 1889. Faleceu em São Paulo, à 17 de março de 1903. Foi um dos fundadores do Jornal “A Província de São Paulo”, hoje “O Estado”.

RUA PIRES DO RIO: homenagem ao Coronel Rodrigo Pires do Rio, chefe político de grande prestígio, que residia no então Distrito de Aparecida, pertencente à Guaratinguetá. Tinha a patente de Coronel da Guarda Nacional. Foi vereador municipal em diversas legislaturas. A ele se deve a promulgação do Código de Posturas do Município.

RUA JOAQUIM FAGUNDES: homenagem à Joaquim Soares Fagundes Júnior. Vereador Municipal em diferentes legislaturas. Fundou e manteve nesta cidade, por muitos anos, a Farmácia Normal. Como Diretor da Cia. Luz e Força de Guaratinguetá, proporcionou à cidade, a iluminação elétrica e a linha de bondes para Aparecida.

RUA ALFREDO ANTUNES: homenagem à Alfredo Antunes de Oliveira, nascido em 1861 e falecido à 03 de abril de 1945. Foi um dos fundadores e gerente por mais de 40 anos do Banco Popular de Guaratinguetá, a primeira casa de crédito que existiu aqui, mais tarde incorporada ao Banco de Itajubá. Foi o primeiro Juiz de Paz desta cidade, após a proclamação da República e foi também Coletor Federal por alguns anos. Vereador municipal em diversas legislaturas. Foi de sua iniciativa, o ajardinamento da Praça 13 de Maio (hoje Praça Conselheiro Rodrigues Alves), bem como a construção do Teatro Municipal (atual prédio da Prefeitura). Tinha patente de Capitão da Guarda Nacional.

RUA CÔNEGO BENEDITO: homenagem ao Cônego Benedito Teixeira da Silva Pinto, Vigário da Paróquia de Santo Antônio de Guaratinguetá por duas vezes, de 1873 à 1879; e de 9 de Julho de 1898 à 03 de Fevereiro de 1903. Entre suas obras, se deve à construção da Igreja de São Benedito. Faleceu aos 73 anos de idade e está sepultado de fronte à entrada da Capela do Cemitério dos Passos.

RUA ALBUQUERQUE LINS: homenagem ao Dr. Manoel Joaquim de Albuquerque Lins. Foi o oitavo Presidente do Estado de São Paulo no período republicano, exercendo seu mandato durante o quadriênio de 01 de Maio de 1908 à 01 de Maio de 1912. Seu sucessor no Governo de São Paulo foi Conselheiro Rodrigues Alves. Faleceu em São Paulo, à 07 de janeiro de 1926.

RUA MARCONDES DE MOURA: homenagem ao Coronel Antonio Marcondes de Moura, nascido em 1842 e falecido à 20 de Novembro de 1916. Coronel da Guarda Nacional, membro destacado do partido Conservador, vereador da Câmara Municipal e Delegado de Polícia. Proclamada a República, afastou-se de política, mas a ela retornou mais tarde, por insistência de seu amigo e compadre, Comendador Rodrigues Alves. Foi casado com Dona Madalena Delminda de Jesus, filha do Alferes José Montino dos Santos, que integrou a comitiva do Príncipe D. Pedro, presente ao Grito da Independência.

RUA ALMIRANTE ALEXANDRINO: homenagem ao Almirante Alexandrino Faria de Alencar, nascido em 1848, no Rio Grande do Sul. Foi um dos mais ilustres chefes da nossa Armada. Nomeado Ministro da Marinha em 1906, pelo Presidente Afonso Pena, exerceu esse cargo nos outros três governos seguintes: Nilo Peçanha, Marechal Hermes da Fonseca e Wenceslau Braz.

RUA SÃO JOSÉ: homenagem ao esposo de Maria Santíssima, e por ser o pai adotivo de um ser humano “divino”, que à sua época, foi considerado subversivo por ter pretendido fazer melhor a distribuição de renda e pregar a igualdade entre os homens, sendo, por isso, crucificado (Jesus Cristo).

RUA ANÔNIMA: fica quase ao final da Alfredo Antunes, ligando esta com a Rua Joaquim Fagundes. Alguns a chamam de Travessa Alfredo Antunes. Mas, como rua, não tem nome.

Na “canela do Morro”, ficava a venda do Totó. O Totó – Antônio Miranda de Carvalho – era uma dessas pessoas cujo coração não cabe no peito. Era figura queridíssima do povo do Alto. Principalmente daqueles que não tinham o bom hábito de pagar sua caderneta no final do mês.

O Totó vendia com caderneta. Na sua venda, na esquina da Rangel Pestana com a Cônego Benedito, tinha quase tudo. Inclusive a sua generosidade. E quando alguém lhe alertava para o fato de ainda estar vendendo fiado para a mulher de algum “esquecidinho”, ele retrucava, como a afirmar que aquela era sua sina, dizendo: “Mas como é que faz ? Essa criança precisa comer...”.

Ele mesmo parece que gostava de ser o dono da venda. E viver perto daquela velha amiga sua. Tanto assim, que quando vendeu seu negócio ao seu irmão, José Miranda, ele ainda continuou a alugar o porão da casa do Zé Nico, um velho gordo, lenheiro, para guardar o vasilhame das bebidas, que não era tão pouco assim.

Mas, José Miranda de Carvalho não agüentou o “tranco”. Não estava acostumado com a longa vida das cadernetas; e logo vendeu seu negócio ao Sr. Carlos de Panha – “Nem”.

A Rodovia Presidente Dutra, com sua primeira pista terminada em 1950, veio derrubar aquela que foi a venda mais autêntica do Alto. De tal maneira ligados – Alto e Venda do Totó – que falar de um, era lembrar da outra.

Até à década de 60, o Alto das Almas “não sabia” o que era água. Nem quando chovia: a enxurrada descia com tanta pressa, que parecia querer apenas se mostrar aos seus moradores e fugir logo dali. Mas se não tinha água, tinha uma das maiores caixas d’água que já existiram nesta cidade. Ficava na confluência da Rangel Pestana com a Cônego Benedito, em frente à venda do Totó Miranda. Rua esta que depois foi “extinta” pela Rodovia Presidente Dutra.

A Caixa D’Água era um prédio alto – uma espécie de caixa mesmo, toda fechada, com apenas uma porta de ferro batido ou latão, nos seus fundos. Pelas gretas dessa porta, a molecada jogava cacos de louça ou de telha, que ao cair no fundo vazio, faziam um “barulhão” com eco bem esparramado.

Essa Caixa D’Água, que mais deveria chamar-se caixa d’ar, ficava dentro de um terreno quase quadrado, todo murado. Dona Ercília, esposa do Sr. Zé Nico – José Garcia dos Reis , era uma das poucas pessoas a ter água encanada em casa. Depois, por volta de 1938, instalaram a torneira pública em frente à Venda do Totó. E ali todo mundo se servia. O Alto inteiro dali bebia, dali cozinhava, dali se lavava, dali tirava água para fazer sua casa, para lavar o bebê recém-nascido e o defunto fresco.

E enquanto se esperava, os cochichos corriam soltos. Era o ponto “social” do Alto. Ficava-se, ali, sabendo quem apanhou do marido na noite anterior e quem foi visto rodando a casa de quem à mesma hora.

A torneira continuou por muitos anos a única fonte de água para os moradores do bairro. Até que na década de 60, a Prefeitura construiu um Caixa D’Água à altura do número 500 da Rangel Pestana, e o “Alto” pôde saciar sua sede. Na Pedreira, onde hoje fica a Rua Cunha, existia o Rancho, era um conjunto de cobertos altos, sem paredes laterais, nem forro. O Rancho era uma parada de “tropas” que vinha das bandas de Cunha. E era lá, que a molecada se divertia, vendo os animais que vinham junto com os tropeiros.

O “Zé Louquinho” foi um dos personagens mais marcantes do Alto. Era um homem pequeno, magro, mal nutrido, que a cada passagem de lua – segundo se ouvia dos mais velhos – ficava furioso. Mas geralmente ele não o era. Não agredia. Pelo contrário, fugia das pessoas. Principalmente de soldado.

Daí chegava à “lua” – era assim, um “Deus nos acuda” ! Fazia gritaria danada, com sua voz fina e penetrante. Queria cigarro e café. Sua casa, um pouco afastada da rua, ficava no alto de um barranco que era galgado por uma escada de cimento. À frente, uma cerca de bambu que, coitada, era violentamente sacudida, maltratada, enquanto ele gritava: “Quero café, vaca veia ! Quero café !”. E lá iam pedradas em quem passasse pela rua naquelas horas. Quando passava a lua, tudo voltava ao normal.

O “Congo”, pessoa conhecidíssima na cidade, também era do Alto. Alguns parentes seus moram lá. Homem misterioso, o Congo quase não falava. Só se perguntasse alguma coisa a ele.

Negro, bem escuro, sua fama como aliado do “bicho-papão” nasceu no Alto. E ali se espalhou pela cidade. De tal maneira que deve ser o filho do bairro mais conhecido em Guaratinguetá. Principalmente pelo fato de divulgarem que ele andava pela cidade, e quando encontrava um bêbado caído pelas calçadas, levava-o para dormir embaixo do Viaduto da Pedreira, seu reduto predileto. Mas não fazia por caridade. Segundo consta, para satisfazer instintos impublicáveis. Verdade ? Mentira ?

“Monsenhor Filippo”, quando morreu, em 28/08/1928, certamente deixou uma de suas obras abandonada, a Capela de São João. Talvez pela localização em sítio de difícil acesso, talvez porque fosse essa uma obra de característica personalista.

Pois a Capela de São João foi construída por Monsenhor Filippo para servir como seu refúgio. Por volta de 1945, a capela já estava em ruínas. E os filhos do Alto, dedicam à Monsenhor Filippo, a sua gratidão, pelo fato de os terem transformado de filhos das Almas em filhos de São João.

Morro acima, uns dez metros depois dessa capela, havia um “raspadão”. Era o campo de futebol do Alto. Não podia faltar. Esse campo viu memoráveis disputas entre o pessoal do Largo da Bica (Praça XV de Novembro) e o pessoal do Alto.

O “Bizorro”, era o craque do Alto. Centroavante, tipo Leônidas da Silva: atarracado e driblador. O “Paíca” era um dos zagueiros. O “Mané Goiaba”, o outro. No time do Largo da Bica, o goleiro era o “Edno Machado”. O “João e o Mané Pisani”, e “Aluízio Calmon Vieira” também faziam parte do time lá de baixo.

Construiu-se uma escada, inicialmente, no governo Zollner Machado, para escalar-se o Morro. Depois, a desmancharam para calçar-se a Rangel Pestana. E a Marcondes de Moura. Acenderam-se lâmpadas de mercúrio até além das existentes. A água agora não vem mais de baixo: a Caixa D’Água, do tempo da Administração Ranieri, é a última obra: o líquido é bombeado lá pra cima, diretamente, e, depois é que desce o Morro, espalhando alegria.

Hoje, o Alto melhorou o seu acesso, e uma boa parte dos moradores têm carro, a água subiu, orelhões foram instalados, a Escola de Ensino Fundamental “Luzia de Castro Mitidiéri” (Grupinho) retém lá alunos que, juntamente com os da Boa Vista, enchiam de problemas o Grupo Escolar “Dr. Flamínio Lessa”. Isto é muito bom, porque os alunos não precisam andar muito.

Hoje não há mais espaço, as casas ocuparam tudo, o Cemitério não existe mais, em lugar das boiadas, hoje há a Dutra, que quase pôs o Alto à baixo. Derrubou de uma só vez, a Venda do Totó, o Orfanato Monsenhor Filippo (ex-Colégio São José), a Santa Cruz que existia na esquina da Alfredo Antunes com a Cônego Benedito, a Caixa D’Água velha e a torneira da esquina do Totó.

Hoje, a população do Alto anda por volta de mais de três mil habitantes. Vivos. Que residem em mais de 1.800 moradias, que entre casas antigas e humildes, casas novas, mas humildes; casas novas, boas e com certo “luxo”; casas grandes, casas pequenas, sobrados e vilas.

A criminalidade no bairro diminuiu, alguns moradores cresceram, estudaram e se destacaram como professores, advogados, empresários, doutores, policiais, músicos e compositores. Entre os filhos ilustres do bairro, têm destaque o nome de Bonfiglio de Oliveira, maestro e pistonista de fama internacional.

Na esquina da Rua Coronel Tamarindo com Alfredo Antunes, se encontra a Sede Social do “Pedreira Futebol Clube”, e na Rua Alfredo Antunes, nº 105, se encontra a Sede Oficial da A.R.C.E.S. Embaixada do Morro, o maior orgulho dos moradores dos Bairros da Pedreira e Alto das Almas.
Alguns moradores possuem em sua casa, computadores com acesso à Internet, colocando não só as pessoas, mas como também o bairro em sintonia com o mundo. No que chamamos hoje de “globalização”.

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