O Carnaval de Guaratinguetá
SURGIMENTO E EXPANSÃO
Acompanhando
a vocação festeira do povo valeparaibano, Guaratinguetá apresenta
rico calendário; que alterna, por todo o decorrer do ano,
festividades, consideradas “profanas” e religiosas. Podem
ser observadas nelas, heranças e tradições européias, miscigenadas
pela riquíssima contribuição do índio e do africano. De todas
e tantas festas que alegram e enfeitam a vida da comunidade,
têm destaque o Carnaval.
O
Carnaval, com suas danças, fantasias e nortes regados a muita
bebida, chegou à Guaratinguetá ainda como entrudo, que era
uma festa até um pouco violenta e com brincadeiras de mau
gosto, sendo trazida pelos portugueses. Na “brincadeira” do
entrudo, os portugueses faziam uma guerra de baldes d’água
e lixo.
Isto
também aconteceu em Guaratinguetá, onde
as “brincadeiras” iam desde o “limão-de-cheiro”, fabricado
pelas próprias famílias, até aos baldes d’água mal cheirosos
ou de perfumes suaves que eram jogados nos transeuntes e nas
visitas.
O
entrudo chegou a sofrer proibições, mas se manteve firme,
até que os limões-de-cheiro e baldes d’água
foram substituídos por confete, serpentina e lança-perfume.
Relatos nos passam que o confete foi introduzido no Brasil
por volta de 1892, e que a serpentina nasceu em 1896, em Paris,
com um bailado denominado “A Dança da Serpentina”.
O
“lança-perfume” veio da Suíça, fabricado pela
“Rodo”, que em 1911 teve uma encomenda tão extraordinária,
que mandou um representante ao Brasil para
ver de perto como se gastava tanto “lança-perfume” em uma
só festa. No ano de 1928, se comentava que o “éter” fantasiado
de lança-perfume era servido com “escândalo” no Carnaval.
O exagero e desvio em seu uso, principalmente devido ao efeito,
terminaram por determinar sua proibição definitiva, tanto
em ruas como em salões.
A
etimologia da palavra Carnaval é
incerta. Relatos nos dizem que corresponde
ao Catalão “Carnes toltas” ou “Carnes subtraídas”. Indica
o período em que era permitido o uso de carne na alimentação,
preparando as interdições da Quaresma, na qual o uso era proibido.
Pode-se concluir, então, que o Carnaval
de hoje, sucedeu ao entrudo, constituindo-se no período em
que pobres e ricos, velhos e jovens, brancos e negros, esquecem
as diferenças sociais e econômicas para dedicaram-se somente
a ele, colocando num só nível, as antagônicas classes econômicas.
À partir de 1846, uma novidade veio alegrar
ainda mais as festas do Carnaval; o “Zé Pereira” ou “Tocador
de Bumbo” (Tambor), sendo sua origem ainda discutida, mas
com um toque e músicas características do Rio de Janeiro:
“Viva
o Zé Pereira
que a ninguém faz
mal ...
Viva a bebedeira
Nos dias de Carnaval
!”
O
Carnaval Paulista começou nas sociedades familiares e depois,
aos poucos, ganhou o povo. Em Guaratinguetá, os costumes severos
não permitiam a presença de mulheres nas brincadeiras de rua;
e elas, então, se contentavam em assistir os cortejos e brincadeiras
das janelas e sacadas. Cavaleiros em montarias ricamente enfeitadas,
ofereciam às sinhazinhas nas janelas, ramalhetes de flores
amarrados na ponta de lanças de madeira.
Os
Bailes de Máscaras de Carnaval não
eram para senhoras e senhoritas da elite, entretanto, esta
regra não se estendia aos homens desta classe, já que as máscaras
serviam para disfarçar; ou como diziam, “salvar a aparência”.
Os bailes eram anunciados nos jornais locais, com bastante
antecedência, dando tempo para que se buscassem máscaras e
fantasias na Corte. Isto porque, em uma cidade pequena como
Guaratinguetá, naquela época, seria fácil identificar a pessoa
pelo material adquirido nas lojas locais.
As
Sociedades Carnavalescas eram organizadas, cantando com sócios
que pagavam mensalidade, e delas participavam pessoas de prestígio
da cidade. O Entrudo está registrado nos jornais de Guaratinguetá,
entrando em decadência por volta de 1881, conforme notícia
publicada em “O Liberal” e que descreve “... O brinquedo do
Entrudo não esteve forte. Já vai aos poucos caindo em desuso”.
O
“Clube Literário e Recreativo Guaratinguetaense” foi fundado
em Janeiro de 1882, segundo rezam os seus Estatutos, pelo
Sr. Batista de França Rangel. Não tinha, no início, sua Sede
Social em prédio próprio, vivendo em casa alugada. Foi a Diretoria
do Comendador Pereira que lhe deu edifício próprio, no qual
funcionou até que a Diretoria do Professor Virgílio Alves
da Rocha, o pôs à baixo, para
que, em seu lugar, construir um prédio novo, que era luxuoso
e confortável.
Os
bailes começavam às 20 horas. Formava-se uma comissão de recepção
de escolhidos rapazes, à entrada do “Clube”. Estes recebiam
as famílias, davam o braço às moças e senhoras e as conduziam
até à porta do “toilette”. Todos dançavam.
No
ano de 1909, Guaratinguetá teve um Carnaval
brilhante e magnífico. Momo foi alvo das maiores ovações por
parte de seus admiradores, recebendo grandes demonstrações
de entusiasmo e alegria.
O
“Clube Literário Guaratinguetaense” teve a luminosa idéia
de organizar, neste ano, os mais esplêndidos festejos do Carnaval.
Uma comissão bem escolhida, ativa, seleta, composta dos distintos
cavalheiros: Dr. Homero Ottoni, Antenor Soares, Júlio Antunes,
Virgílio Guimarães, Dr. Anfúsio Gouveia e Francisco Rabelo,
reaizaram os maiores esforços para o brilhantismo da festa.
Num
sábado, dia 20 de Fevereiro de 1909, o Clube Literário ofereceu
uma festa dançante que foi concorridíssima, se prolongando
às mais adiantadas horas da noite, não deixando nada a desejar.
À
porta do Clube, uma comissão delicadíssima fazia a recepção
do estilo, cativando os convidados. Às nove horas da noite,
mais ou menos, deu a entrada no Clube, a Corporação Musical
da “Sociedade União Beneficente”, que ia honrar com sua presença,
os festejos do Clube, à convite da
Diretoria. Fizeram-se apresentar também muitas associações
locais, dentre as quais, a
“União e Trabalho”, “Destemidos Carnavalescos” e “Empregados
no Comércio”.
Às
nove horas, foi servido profuso copo de cerveja acompanhado
de sanduíches, aos convidados. Durante o baile, reinou naquele
centro literário, a maior satisfação, a mais comunicativa
e íntima alegria.
O
“Domingo Gordo” foi uma surpresa em relação aos outros anos.
Um grupo carnavalesco pelas principais ruas da cidade, comunicando
alegria a todos.
Fizeram-se
representar neste grupo, o “Clube Literário e Recreativo”, o “Clube Aliança”, a “Associação dos Empregados
no Comércio”, associados do “Clube Familiar” e as corporações
musicais “União Beneficente” e “Mafra”. Todos os grupos traziam
carros alegóricos e estandartes.
Na
segunda-feira, não houve nada, somente à noite, um pouco de
máscaras, água e confete. Na terça-feira, desfilaram pelas
ruas centrais, os mesmos grupos do domingo, com pequenas modificações.
Com
o abandono do Entrudo e com o toque lançado pelo “Zé Pereira”,
começaram a surgir em Guaratinguetá, os primeiros grupos,
blocos e cordões, neste mesmo ano de 1909.
As
músicas que movimentavam o Carnaval
eram valsas, as polcas, os lundus, as quadrilhas e os “tanguinhos”.
Caminhando assim até 1908, quando apareceram as marchinhas;
e; em 1917, quando começou a pontilhar o samba.
Houve
um autor, conhecido como Donga, que chegou a transformar o
seu famoso tango “Pelo Telefone”, em samba (1º samba da história),
como provam as partituras existentes no Museu Frei Galvão,
em Guaratinguetá.
As
marchinhas eram de ritmos ligeiros, divertidos e, muitas vezes;
críticos dos acontecimentos do ano anterior. Por volta de
1920, todos pensavam que o samba servia para denominar qualquer
música carnavalesca. A batucada, que a princípio devia ser
só de samba, passou a ser usada também na marcha.
Muitas
marchinhas se perderam no tempo. Outras tornaram-se
eternas, pelo tema e musicalidade. É o caso da “Cachaça”,
de autoria de M. Pinheiro, L. de Castro e H. Lobato.
O
nome lembra a bebida mais conhecida do Brasil, vinda da época
dos engenhos, que fizeram parte da história econômica de Guaratinguetá:
Você
pensa que cachaça é água ...
Cachaça não é água
não ! (B I S)
Cachaça vem do alambique,
E água vem do ribeirão
!
Pode
me faltar tudo na vida ...
Arroz, feijão e
pão.
Pode me faltar manteiga,
E tudo mais não
faz falta não.
Pode me faltar o
amor ...
Isso até acho graça.
Só não quero que
me falte,
A gostosa da cachaça
!
Marchinhas
de autores de Guaratinguetá ainda podem ser lembradas, como
a “Paraquedista” e a “Lulu”, de Paulo Teixeira – o Paulo Alfaiate,
um dos fundadores do Bloco dos Tesoiras, composto só de alfaiates, criado em 1925 e existindo
a alguns anos como “Velha Guarda”.
Variantes
das marchinhas, foram as “Marchas-Ranchos”,
de ritmo um pouco mais lento, como a “Recordando”, de José
Catharina Filho, também de Guaratinguetá.
Durante
esta transformação musical e carnavalesca, que surgiram novos
blocos, sendo alguns de curta duração.
Blocos
que existiram em Guaratinguetá durante os anos de 1922 à
1971:
Fundação ===== Nome
1922
========= Aperta o Parafuso
1923 ========= Oito
Turunas
1925 ========= Os
Tesoiras / Alegria e Nada Mais / Velha-Guarda
1928 ========= Vai
Quebrar
1934 ========= Anjos
do Abacaxi
1939 ========= O
Sol Nasceu pra Todos
1944 ========= Embaixada
do Morro (1ª Agremiação Oficial)
1945 ========= Flor
da Avenida
1946 ========= Desgraça
Pouca é Bobagem
1948 ========= Estudantes
/ Vai à Zóio
1961 ========= Quirinos
1962 ========= Embaixada
do Visconde
1966 ========= O
Pouca Roupa / Tamandaré
1969 ========= Pra
Frente
*
Nossa Amizade
* Quer Moleza
... Senta no Pudim
* Flor do Sertão
* Flor de Guará
* Flor de Abacate
* Tem que Valer
* Foliões de Guará
* Se a Pinga Acabar
* Bambas da Idade
* Bloco Tangará
* Estrela D’Alva
* Embaixada dos
Quirinos
* Moleques do Samba
* Quem Fala de Nós
tem Paixão
*
Na pesquisa que foi realizada, não se encontrou o ano de fundação.